Artigo

A re-tradução desnecessária

Zoia Prestes e Elena Beliakova *, Jornal do Brasil

A história dos laços culturais russo-brasileiros na área de tradução literária tem mais de dois séculos e, na origem, vemos nomes do grande poeta Aleksandr Puchkin e de D.Pedro II. Puchkin traduziu para o russo um trecho de Marília de Dirceu, do poeta luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga, e D. Pedro II, por sua vez, estudou a língua russa e traduziu para o português fábulas do russo Ivan Krilov. 

No século XX, o bielorrusso David Vigodski, ainda muito pouco conhecido em terras brasileiras, pode ser destacado como um nome importante no campo da tradução de obras de autores latino-americanos para o russo, entre os quais figuram os brasileiros Mario de Andrade e Alcides Maya. 

No Brasil, um pouco mais tarde, também vemos ganhar força a tradução para o português de escritores russos que, no entanto, são realizadas, em sua grande maioria, do idioma francês. Um exemplo clássico, são as obras de Dostoievski publicadas pela editora Nova Aguilar. Traduções diretas do russo começam a fazer parte do cenário editorial brasileiro mais ao final do século XX e ganharam grande impulso nas duas últimas décadas. 

Com isso, um novo fenômeno também vem surgindo tanto no Brasil como na Rússia: a re-tradução de obras já traduzidas diretamente do idioma original. Os adeptos da corrente de “múltiplas versões” afirmam que o leitor, que não lê na língua original do autor traduzido, precisa ter acesso a diferentes versões para poder comparar as traduções. 

Na Rússia, temos uma “nova” tradução de “Tenda dos milagres”, de Jorge Amado e, no Brasil, uma “nova” tradução de “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak. O que pretendem os defensores dessas re-traduções? Será que realmente acreditam que o leitor sentará diante de dois volumes para comparar as escolhas de cada tradutor? 

Ora, quem assume o compromisso de traduzir um autor também assume grandes responsabilidades e a maior delas é fazer com que o leitor que não lê na língua original do autor conheça e admire sua obra, porque uma tradução ruim destrói também a obra de um autor. Mas, pelo visto, as re-traduções têm outras intenções, já que ainda há tanta obra brasileira desconhecida na Rússia e tanta obra de escritores russos desconhecidos no Brasil. Ao invés de se preocuparem em “re-traduzir”, poderiam traduzir.

 * Professoras e tradutoras