Jornal do Brasil

Coisas da Política

A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (IV e última parte)

Mauro Santayana, Jornal do Brasil

A atividade política, no Brasil, sempre funcionou na base do “jeitinho” e da “negociação”.

Mesmo quando interrompido o processo democrático, com a instalação de ditaduras - o que ocorreu algumas vezes em nossa história - a política sempre foi feita com base na troca de favores entre membros dos Três Poderes, e, principalmente, de membros do Executivo e do Legislativo, já que, sem aprovação - mesmo que aparente - do Congresso, ninguém consegue administrar este país nem mudar a lei a seu favor, como foi feito com a aprovação da reeleição para prefeitos, governadores e Presidentes da República, obtida pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. 

Toda estrutura coletiva, seja ela uma jaula de zoológico, ou o Parlamento da Grã Bretanha, funciona na base da negociação.

>> A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (I)

>> A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (II)

>> A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (III)

Fora disso,   só existe o recurso à violência, ou à bala, que coloca qualquer machão, por mais alto, feio e forte seja,  na mesma posição de vulnerabilidade de qualquer outro ser humano.

O “toma-lá-dá-cá” nos acompanha há milhares de anos e qualquer um pode perceber isto, se parar para observar  um grupo de primatas.

Ai daquele, entre os macacos, que se recusa a catar carrapatos nas costas alheias, a dividir o alimento, ou a participar das tarefas de caça, coleta ou vigilância. 

Em seu longo e sábio aprendizado com a natureza,  já entenderam eles, uma lição que, parece, há muito,  esquecemos: a de que a sobrevivência do grupo depende da colaboração e do comportamento de cada um.

O problema ocorre quando nesse jogo, a cooperação e a solidariedade, são substituídas pelo egoísmo e o interesse de um indivíduo  ou de um determinado grupo, e a negociação, dentro das regras usuais,  é trocada por pura pilantragem ou o mero uso da força.

O corrupto é aquele que quer receber mais  cafuné do que faz nos outros, o que rouba e esconde comida, quem, ao ver  alguma coisa no solo da floresta ou da savana, olha para um lado e para o outro, e ao ter certeza de que não está sendo observado, engole, quase engasgando, o que foi encontrado.

O fascista é aquele que faz a mesma coisa, mas que se apropria do que pertence aos outros, pela imposição extremada do medo e da violência mais injusta.

Se não há futuro para os egoístas nos grupos de primatas, também não o há para os fascistas. Uns e outros terminam sendo derrotados e expulsos, de bandos de chimpanzés, babuínos e gorilas, quando contra eles se une a maioria. 

Já que a negociação é inerente à natureza humana, e que ela é sempre melhor do que a força, o que é preciso fazer para diminuir a corrupção, que não acabará nem com golpe nem por decreto ?

Mudar o que for possível, para que, no processo de negociação, haja maior transparência, menos espaço para corruptos e corruptores, e um pouco mais de interesse pelo bem comum do que pelo de grupos e corporações, como ocorre hoje no Congresso.

O caminho para isso não é o impeachment, nem golpe, mas uma Reforma Política, que mude as coisas de fato e o faça permanentemente, e não apenas até as próximas eleições, quando, certamente, partidos e candidatos procurarão empresas para financiar suas campanhas, e espertalhões da índole de um Paulo Roberto Costa, de um Pedro Barusco, de um Alberto Youssef, meterão a mão em fortunas, não para fazer “política” mas em  benefício próprio, e as mandarão para bancos como o HSBC e paraísos fiscais.

O que é preciso saber, é se essa Reforma Política será efetivamente feita, já que é fundamental e inadiável, ou se a Nação continuará suspensa, com toda a sua atenção atrelada a um processo criminal, que é o julgamento dos bandidos identificados até agora, no  Caso Petrobras, que, em sua maioria, sairão dessa impunes, para gastar o dinheiro, que, quase certamente, colocaram fora do alcance da lei, da compra de bens e de contas bancárias.

Pessoas falam e agem, e sairão no domingo às ruas também por causa disso, como se o Brasil tivesse sido descoberto ontem e o caso de corrupção da Petrobras, não fosse mais um de uma longa série.

Se a intenção é passar o país a limpo e punir  de forma exemplar toda essa bandalheira, era preciso obedecer à fila e à ordem de chegada, e ao menos reabrir, mesmo que fosse simultaneamente, casos como o do Banestado - que envolveu cerca de 60 bilhões - do Mensalão Mineiro, do Trensalão de São Paulo, para que estes, que nunca mereceram a mesma atenção da nossa justiça nem da sociedade, fossem investigados e punidos, ao mesmo tempo que o da Petrobras, em nome da verdade e da isonomia, na grande faxina moral que se pretende estar fazendo agora.  

Ora, em um país livre e democrático - no qual, estranhamente, o governo está sendo acusado de promover uma ditadura - qualquer um tem o direito de ir às ruas para protestar contra o que quiser, mesmo que o esteja fazendo por falta de informação, por estar sendo descaradamente enganado e manipulado, ou por pensar e agir mais com o ódio e com o fígado do que com a razão e a cabeça.    

Esse tipo de circunstância facilita, infelizmente, a possibilidade de ocorrência dos mais variados - e perigosos -  incidentes, e o seu aproveitamento por quem gostaria, dentro e fora do país,  de ver o circo pegar fogo.

No frustrado golpe contra o Presidente Chavez, eleito no ano 2000, dois anos depois, franco-atiradores de grupos contrários a ele, infiltrados nas manifestações, atiraram contra opositores e puseram a culpa em seus seguidores -  tentando jogar o país contra o governo.

E a mesma coisa ocorreu no ano passado, na queda do governo Yanukovitch, na Ucrânia, quando franco-atiradores neonazistas dispararam suas armas contra a multidão Praça Maidan, em Kiev, e depois colocaram a culpa em tropas do governo, como afirmou o ministro das relações exteriores da Estônia,  Urmas Paet, à Chefe de Assuntos Estrangeiros da União Europeia, Chaterine Ashton.

Para os que estão indo às ruas por achar que vivem sob uma ditadura comunista, é sempre bom lembrar que em nome do anticomunismo, se instalaram - de Hitler a Pinochet - alguns dos mais terríveis e brutais regimes da História. E que nos discursos do líder nazista podem ser encontradas as mesmas teses, e as mesmas acusações falsas e esfarrapadas que se encontram hoje, disseminadas, na internet brasileira.    

Esperemos que os protestos de domingo transcorram pacificamente, se isso for possível - considerando-se a forma como estão sendo convocados e os apelos ao uso da violência que já estão sendo feitos por algumas organizações - e que, mesmo que venham a ser utilizados por inimigos internos e externos para antagonizar e dividir os brasileiros, não tragam como consequência a morte de ninguém, além  da verdade - que já se transformou, há muito tempo, antes mesmo que tenham começado, na primeira e mais emblemática vítima dessas manifestações.

Há muitos anos, deixamos de nos filiar a organizações políticas, até por termos consciência de que não há melhor partido que o da Pátria, o da Democracia e o da Liberdade. 

O rápido fortalecimento da extrema direita no Brasil - apesar dos alertas que tem sido feitos, nos últimos três ou quatro anos anos, por muitos observadores - só beneficia a um grupo: à própria extrema direita, cada vez mais descontrolada,  radical e divorciada da realidade.

Na longa travessia, pelo tempo e espaço, que nos coube fazer até agora, entre tudo o que aprendemos nas mais variadas circunstâncias políticas e históricas, aqui e fora do país, está uma lição que reverbera, de Weimar a Auschwitz, profunda como um corte:

Com a extrema-direita não se brinca, não se tergiversa, não se faz acordo.  

Quem não perceber isso - esteja na  situação ou na oposição - está sendo ingênuo, ou irresponsável, ou mal intencionado.