Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Mundo cão

Jornal do Brasil

Quando eu era jovem, bem antes de ter filhos, adorava uma frase do comediante americano dos anos 20 chamado W.C. Fields. Ele dizia que “todo homem que não gosta de cachorros e crianças não pode ser mau de todo”. Eu achava o máximo e repetia, normalmente para quem ainda não tinha nem filhos nem cachorros. Alguns anos depois, já pai, comecei a achar que a frase era um pouco exagerada e lendo a biografia do comediante descobri que, na verdade, ele tinha problemas seríssimos com um filho não reconhecido. Esse filho um dia apareceu em Los Angeles na casa do pai à sua procura, certamente a mando da mãe. Depois de oferecer um hambúrguer e um pouco de dinheiro, mandou o filho de volta. A esperteza de W.C. Fields não passava de grosseria e comecei a aceitar só a implicância dele com cachorros, ou melhor, com quem tinha cachorros. De fato, bem lá no fundo, achava estranho quem tratava animal doméstico como filho.

Macaque in the trees
Mundo cão (Foto: Reprodução)

Sempre tive cachorros, mas, como tinha filhos, eles ocupavam um lugar secundário no ranking amoroso da família e dormiam fora de casa. Até o pequenino Pumpy, um fox “pelo duro” cheio de personalidade, dormia ao relento, apesar do frio. Acho que dormia enroscado no Funk, pastor alemão que tinha o papel de cuidar da casa, mas, quando os dois fugiam pela rua, era o pastor que seguia o fox.


Os filhos cresceram, a família mudou, os netos nasceram e o cachorros continuaram. Angela tinha um Weimaraner, o Otto, que só faltava falar. Mas eu não gostava que dormisse no nosso quarto. Ele sacudia as orelhas quando acordava e, com isso, me acordava também. Agora sou obrigado a conviver com um bulldog francês, o Joca, que passou a fazer parte da família apesar das minhas advertências.
Mas eu mordi a língua.


Joca foi entrando devagarinho na minha vida com aquele jeitinho de cão rejeitado, porque, apesar de ter “pedigree”, ele é todo diferente. Os dentes são tortos, o focinho é mais comprido e ele parece uma mistura de morcego com bezerro. Mas é lindo.


Quando trabalhava com a Rosiska Darcy de Oliveira, feminista e pensadora sobre a condição da mulher, conversávamos muito sobre a inevitabilidade da gravidez nas mulheres de baixa renda. Além das questões sociais o que sobra para essas mulheres é a total solidão de uma vida árida e muitas vezes permeada de violência. A maternidade passa a ser a garantia do amor , do vínculo afetivo e da interdependência. A criança precisa da mãe para sobreviver e a mãe precisa da criança para se sentir amada.


O que isso tem a ver com o Joca? Diretamente, nada e tudo. A relação com os animais também estabelece um vínculo afetivo forte, uma interação amorosa de dois seres que dependem um do outro. Já está provado que o contato com animais traz benesses terapêuticas e ajuda no tratamento da solidão e da rejeição. Pessoas têm animais domésticos para dar e receber esse afeto.


Portanto, eu, que alertava para os problemas de dependência que um cachorro pode trazer, hoje sou vítima dele. Vítima no bom sentido. Adoro minha relação com Joca e me sinto muito bem quando ele se enrosca em mim ou vem com a patinha pedir que eu coce suas costas. Os cachorros da raça dele sofrem problemas de coluna, de pele e de respiração. O Joca só tem problema na coluna, mas faz acupuntura e toma homeopatia. E eu juro, que se ele falar, não vou me espantar, vou responder.



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