Jornal do Brasil

Comunidade em pauta

A dor dos sete dias de violência nas favelas, e a responsabilidade de Cabral

Davison Coutinho, Jornal do Brasil

Não tem como não se emocionar com o depoimento dos familiares das vítimas da violência nas favelas nos últimos dias. Quanta dor, quanto sofrimento, quantos sonhos roubados não só pelo apertar do gatilho, mas por toda política de combate ao tráfico que na verdade só combate a vida dos mais pobres.  O Rio de Janeiro vive um total descontrole na segurança. 

A cada dia está sendo mais naturalizada a quantidade de mortes em favelas, decorrentes de tiroteios. Morrem crianças, morrem trabalhadores, morrem policiais. O Governo do Estado do Rio de Janeiro continua a insistir em um projeto de pacificação falido, criado pelo maior bandido que saqueou a cidade e se fez de bom moço no combate ao crime, quando ele sempre foi o maior criminoso. Ele é, sim, também responsável por essas mortes. 

Vemos a tristeza do pai da menina Vanessa Vitória dos Santos que perdeu sua filha de apenas 10 anos, durante um confronto, atingida dentro de casa no Complexo do Lins. Ele se lamenta e se culpa pela ausência nos últimos meses, pois estava buscando emprego, como milhares de brasileiros que estão desempregados por culpa dos saqueadores que governam este país. Além de todo sofrimento, a família está abandonada, sem nenhuma assistência, contando apenas com os amigos. 

O pequeno Arthur, que nem mesmo na proteção do útero materno foi poupado da violência. O bebê foi atingido na barriga da mãe na favela do Lixão em Duque de Caxias. Ele ficou em estado gravíssimo e ficou paraplégico. O pai sonha apenas em carregar seu filho no colo e a mãe segue internada na esperança de ver o filho com vida. 

As moradoras Marlene Maria da Conceição, de 76 anos, e Ana Cristina da Conceição, de 42 anos, do morro da Mangueira, mãe e filha, morreram quando estavam indo trabalhar, após serem atingidas em um confronto na comunidade. Duas mulheres que desciam para buscar o sustento de suas famílias são assassinadas, ou seja, o favelado não tem nem mesmo o direito de ir trabalhar.

Na mesma semana, o jovem Marcos Paulo, de 17 anos, foi morto na comunidade da Rocinha durante uma operação da Unidade de Polícia Pacificadora.

O que podemos constatar desde sempre é que esta forma de repressão está errada e nunca vai resolver o problema, pois não está atuando de forma inteligente, subindo apenas os morros e não na origem do problema. A sociedade não pode se tranquilizar diante de tanta violência, na ilusão de que a bala vai atingir apenas o outro. Ninguém está livre da violência do Rio de Janeiro. 

A crise atinge a segurança, e o responsável por ela segue poupado com todas regalias aguardando para daqui a pouco estar livre nas ruas gastando o que nos roubou. 

Que Deus conforte o coração de todas essas famílias.

Paz para o Rio de Janeiro!

Paz para as Favelas!

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestre em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade