Jornal do Brasil

Comunidade em pauta

A tragédia cotidiana das mulheres negras e pobres

Mônica Francisco *, Jornal do Brasil

Nesta semana, duas notícias deixaram parte da sociedade, principalmente a que vive em espaços populares, estarrecidos(as) e angustiados(as). A morte de duas mulheres, mãe e filha, no Morro da Mangueira na última sexta-feira (30), e da mulher atingida juntamente com seu filho ainda no ventre.

Marlene Maria da Conceição, de 76 anos, e Ana Cristina da Conceição, de 42 anos, são a materialização dos dados apontados pela ultima pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que assinalou o aumento das mortes de mulheres negras, em um percentual de 22% em uma década(2005-2015).

Embora o número seja vergonhoso quando o grupo é composto por jovens negros e pobres, não podemos fechar os olhos para o aumento do índice entre as mulheres negras pobres. As tragédias cotidianas se sobrepõem, fazem com que a luta pela vida travada pelo pequeno Artur, e a dor vivida duplamente por Claudineia dos Santos Melo, de 29 anos, evidenciem a falácia da tal "Guerra às Drogas".

No momento em que escrevo para esta coluna, chega a mim a notícia veiculada por companheiros e companheiras de várias favelas, que no Lins mais uma menina perdia sua vida. Mais uma menina deixou de sonhar, mais futuros interrompidos. 

Vanessa Santos, de 11 anos, foi mais uma vítima do chamado efeito colateral, da margem de erro, vítima da loteria que é nascer e viver nos espaços de pobreza e vítima, também, do aplauso de parte da sociedade que elege quais são os bandidos bons para morrer e quem são os que não têm muita importância.

Há uma conclusão chegamos e aqui nesta mesma coluna já dissemos: sabemos do racismo institucionalizado e sabemos bem quem não causa sequer uma nesga de piedade ao judiciário branco e rico brasileiro. Sabemos a quem é negada condição de cidadã e cidadão. E sabemos bem quem continuará engrossando, infelizmente os dados estatísticos macabros do nosso país.

Em um estado onde o mercado vale mais do que as pessoas, não há como esperar outro resultado.

* Colunista, Consultora na ONG Asplande e Membro da Rede de Instituições do Borel