O Outro Lado da Moeda

Os ventos vindos da economia internacional 

Jornal do Brasil
O Outro Lado da Moeda
Renê Garcia Jr.

Os ventos da economia mundial ainda sopram favoráveis à retomada da economia brasileira. Esta é a avaliação recorrente de analistas motivados pelo ambiente externo extremamente confortável dos últimos oito anos. De fato, o contexto recente só não nos impactou mais favoravelmente porque o Brasil tinha suas próprias limitações. Mas os sustos observados nos mercados financeiros globais nas últimas semanas e a recente escalada protecionista iniciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, indicam a possibilidade de alguns abalos a esse cenário. 

Até agora tivemos um cenário bastante favorável. As políticas de queda na taxa de juros, praticada pelos principais bancos centrais do mundo, inundaram o mercado financeiro de liquidez e distorceram a perspectivas dos agentes econômicos quanto à rentabilidade esperada dos investimentos, em especial da avaliação mais criteriosa da relação retorno risco de inversões em ativos de países emergentes.

   

O desempenho da economia norte-americana demonstra de forma clara que o período de recessão e estagnação dos anos 2008/2010 foi superado. Têm sido observadas taxas consistentes de crescimento em seu produto há seis trimestres seguidos.  O crescimento do PIB em 2018 deve superar os 2,6 %. Já a taxa de desemprego está no menor nível dos últimos 11 anos.   

O mesmo pode ser encontrado na economia da zona do euro. O bloco de países atingiu, no ultimo trimestre, a maior taxa dos últimos 10 anos, com destaque para a consistência do crescimento, que se repetiu na totalidade das economias representativas da região. A taxa média de crescimento foi de 2,5% ao ano contra 1,8 % do Reino Unido. 

O risco para a economia brasileira pode vir de eventuais movimentos contracionistas na política monetária europeia e americana. Um dos maiores temores é a redução dos enormes programas de liquidez implementados no pós-2008, que vão exigir a manutenção de compras maciças de títulos e o realinhamento nas taxas de juros de longo prazo. Tais efeitos já foram observados e estão em execução pelos bancos centrais europeu, japonês e o FED (americano). Na prática, podem significar a necessidade de uma elevação na taxa de juros básica praticada pelo Banco Central brasileiro ao longo do ano de 2019. 

Realidade econômica e práticas políticas descoladas

Relatório divulgado recentemente por um grupo de estudos do governo britânico estima uma queda de até 9%, em cinco anos, no Produto Interno Bruto do Reino Unido, com a perda de aproximadamente 400 mil empregos. Esse é o cenário para uma eventual saída traumática da comunidade europeia. 

Trata-se de um quadro dramático quando analisamos os índices de desemprego na região do Euro que vem sendo reduzidos de forma constante aos observados no período pós-crise 2009/ 2010. Alemanha, França e Espanha apresentaram taxas de desemprego quase 40% inferiores no ultimo trimestre, quando comparados com o igual período de 2010.   

Cenários como esse sugerem que decisões como Brexit e as recentes políticas protecionistas e de atração de investimentos do governo americano (Lei de impostos e empregos) estão descoladas da realidade econômica, mas podem ter relação com realidade política e social.

 Diversos estudos mostram que a recuperação após a crise de 2008/2009 ocorreu em paralelo a um movimento de aumento das desigualdades e de piora na distribuição de renda. Além disso, a nova revolução industrial já deixa de fora do mercado uma massa de trabalhadores sem qualificação para a nova realidade e a chamada precarização (empregos temporários, sem os vínculos tradicionais), ao que parece, veio para ficar. 

Competitividade de EUA e Europa compensa desaceleração da China

Mesmo com uma eventual queda na taxa de crescimento da economia chinesa, e uma esperada redução no efeito deflacionista das exportações de bens e produtos da pauta de exportação chinesa, por conta de indicadores de esgotamento da capacidade produtiva dos principais setores de produção, o efeito pode ser compensado por eventuais ganhos de competitividade da economia europeia e norte americana.