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Feminismo nas empresas

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO*

Pensar, viver e escrever sobre feminismo são ações que, no cenário atual, carregam um peso enorme. Uma carga composta por altos índices de feminicídio, preconceito, opressão e sofrimento vividos pelas mulheres num acúmulo de décadas de cultura androcêntrica e patriarcal. É difícil fugir do texto pesado, das palavras árduas. Mas se há ações custosas, há outras que nos cobrem de esperança. Não gosto de escrever em primeira pessoa. Aprendi nos muitos anos de jornalismo que o autor não deve ser mais importante que a notícia, ou o objeto do texto. Mas quando se trata de um relato, não há outro jeito. Então vamos lá. Participei, essa semana, de um café da manhã com jovens advogadas, em São Paulo. O assunto era um programa desenvolvido pelas sócias do escritório para melhorar a vida das funcionárias, oferecendo a elas mais conforto e apoio emocional em fases diversas da vida e da carreira. Além do interesse jornalístico, as medidas implantadas por elas me deixaram motivada a seguir no trabalho de conquista por espaço, lugar de fala, protagonismo, empoderamento entre as mulheres.
Batizado como “Demulheres” – uma menção ao nome do escritório, Demarest – o programa garantiu uma sala de amamentação, coleta e armazenamento de leite para as mamães recentes. É o básico. Só que não, já que vivemos em um país em que grande parte das mulheres que retorna da licença maternidade tem que recorrer a banheiros escuros e apertados para retirar o leite. Amamentar o bebê no trabalho, então... é um luxo impensável. E mais: o grupo de mulheres reivindicou e conseguiu estender a licença maternidade de quatro para seis meses para as mães. E de cinco para vinte dias para os pais. De novo: essas iniciativas nem deveriam ser notícia, tamanha a necessidade de maior tempo de mães e pais junto aos filhos recém-nascidos. Mas, de novo, falamos de uma quantidade enorme de mulheres que, não só ficam menos tempo do que deveriam com seus bebês, como morrem de medo de retornar do período de licença e perder o emprego assim que a legislação permitir. Quanto aos pais, uma das jovens advogadas que está à frente do projeto observou que aqueles que aceitam o direito de afastamento por vinte dias o fazem com medo de – eles também! – serem vítimas de preconceito.
Assim como algumas outras empresas, o escritório é signatário dos Princípios de Empoderamento das Mulheres, conjunto de diretrizes criadas pela ONU justamente para auxiliar as empresas na incorporação aos seus negócios de valores e práticas direcionadas ao tema. Na esteira progressista e feminista das diretrizes, a ONU Mulheres também lançou um mapa online que identifica iniciativas e organizações exclusivamente brasileiras que têm como foco a igualdade de gênero e o empoderamento feminino. A plataforma já contabiliza centenas de projetos e permanece aberta para inscrições de novos programas. As conexões, virtuais e reais, abrangem temas como ciência e tecnologia, arte e cultura, educação, empoderamento econômico, política, enfrentamento à violência, entre outros assuntos que compõem o repertório de grupos feministas. Conexão gera conexão. Inspiração motiva inspiração.
Conclusão do encontro: as empresas que contratam escritórios que prestam serviços estão cada vez mais interessadas em relacionar suas marcas a outras que invistam recursos em temas que incentivem a diversidade e a igualdade de gêneros. Sim, porque as consumidoras estão cada dia mais atentas à postura das empresas. Assim, as funcionárias ganham conforto e respeito. As empresas que adotam essas iniciativas atraem mais clientes e, consequentemente, faturam mais. No fim do processo, todas ganham.

* Jornalista



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