Jornal do Brasil

Sociedade Aberta

Desespero de um filho médico sobre uma internação no hospital Vitória e Samaritano

Dr Antonio Carlos Guimarães Junior*, Jornal do Brasil

"Prometo não descansar até corrigir a negligência que tiveram com você naquele hospital, meu pai. Não sou egoísta para negar as vontades de Deus. Às vezes a gente sofre, mas aceita. Mas não deixarei em vão tudo o que te fizeram passar por lá. Nem que isso seja a única coisa que eu ainda tenha que fazer na minha vida".

Realmente a saúde em nosso país está sucateada. Mas como médico, eu pensava que isso só acontecia em hospitais públicos, por falta de verbas ou por corrupção. Mas não é só isso. Falta atendimento humano.

Meu pai estava internado no complexo do Hospital Samaritano e Vitória na Barra da Tijuca, talvez um dos melhores do Rio. Mas aqui, infelizmente, as doenças e suas intercorrências têm que ter hora marcadas. Tudo que acontece à noite, os plantonistas tem que aguardar o dia seguinte para resolver com a rotina, como se em 24 horas de internação o paciente só pudesse piorar no horário comercial das 9h às 17h. E tô falando de coisas básicas como avaliar uma anemia, um sangramento, um coagulograma ou um ajuste de parâmetros da ventilação mecânica.

Além do mais, ninguém trata mais o paciente. Tratam exames. Números. Imagens. E tudo precisa de um parecer do especialista. Poderia até ser uma coisa sensata, não fosse a demora com que alguns desses exames e pareceres são respondidos.

Ao tempo em que em alguns hospitais pacientes morrem por não terem acesso a exames básicos, em outros, é tanta ferramenta diagnóstica, tudo tão acessível, que a relação médico paciente é que passa a ser complementar. 

Eu juro. Meu pai passou pelas mãos de uns 20 médicos diferentes, e posso contar nos dedos de uma mão aqueles que encostaram no meu pai para examiná-lo. E ainda sobraria dedo.

Como que um paciente em pós operatório de Cirurgia Cardíaca para troca valvar Aórtica faz um Tamponamento Cardíaco (complicação previsível e tratável) às 21h e só descobrem o que ele tem às 12:00 da manhã seguinte??

17 horas em choque Cardiogênico, não responsivo às aminas, e com isso as complicações como insuficiência renal, insuficiência hepática e encefalopatia anóxica, que culminaram em sua morte.

A explicação??

Não acordar o cirurgião a noite sem ter subsídios para a certeza do diagnóstico e reabordagem cirúrgica (a qual acabou tendo que ser feita por volta do meio dia, do dia seguinte). Plantonistas se sentem constrangidos em chamar o sobreaviso à noite, e mais uma vez deixam as soluções nas mãos da rotina.

Para mim, um claro exemplo de negligência e também de imperícia, pois até um acadêmico de medicina com meia dúzia de sinais seria capaz de dar um diagnóstico de tamponamento cardíaco, sem um único exame complementar, mas apenas com exame físico. 

Se um setor de Cardio Intensiva de um hospital que se diz de ponta não é capaz de dar esse diagnóstico, então estamos diante de um caso grave de imperícia.

Se não quiseram acordar os colegas do Ecocardiograma ou da Cirurgia Cardíaca à noite, então o caso passa a ser de negligência. A meu ver, o que é ainda pior.

Uma decisão desastrosa que para nós familiares não teve perdão.

Meu pai não morreu pela Endocardite e Cirurgia Cardíaca.

Ele morreu por falta de atendimento médico adequado no período noturno, de uma complicação pós operatória previsível, num lugar com todos os recursos para fazer o diagnóstico a tempo de salvá-lo.

Vocês devem estar pensando: Ah. Mas foi uma fatalidade. Um fato isolado. O hospital lá é muito bom.

É muito triste saber que leigos jamais serão capazes de saber a verdade do que acontece numa internação fechada.

Mas como eu sou médico, tive acesso a tudo.

Entrava a hora que queria e tinha acesso ao prontuário e exames, e sabia exatamente o que podia ou não acontecer, de modo que para mim, era muito mais fácil reconhecer uma negligência.

Fico imaginando quantas vezes isso não acontece, e quantas famílias choram a perda de seus familiares sem nem saber os reais motivos.

Meu pai entrou ali falando.

Estava até feliz, como mostra a foto acima.

Ele comia sozinho. Sentava fora do leito.

Andava pelo corredor com a fisioterapia.

Não podia dormir acompanhante no CTI, então todos os dias a noite, eu o deixava sozinho.

A primeira grande negligência foi chegar um dia de manhã e perceber que simplesmente esqueceram de dar o antibiótico venoso dele.

Meu pai estava internado somente para isso. Nesse momento ainda não tínhamos a confirmação da Endocardite no Eco transesofágico, mas já havíamos isolado uma bactéria na hemocultura. 

Vieram umas 10 pessoas me pedirem desculpas.

Chefes da enfermagem.

Chefe dos médicos 

Fizeram reunião. Teve advertência.

Eles mesmos consideraram aquilo inaceitável.

De certa forma, fiquei até constrangido, pois percebi que passaram a me olhar torto, a parir de então.

Mas tudo bem. Eu já tinha falado mesmo, e pensei: agora eles vão ter cuidado redobrado com meu pai.

Relaxei e fui mais uma vez pra casa à noite.

Passam-se 3 dias de agonia, esperando o parecer da Cirurgia Cardíaca.

A essa altura ja tínhamos a confirmação da Endocardite pelo Ecocardiograma e com complicações, pois a doença havia acometido o anel peri valvar, causando um Bloqueio AV e isso fazia do quadro uma indicação "A" para uma cirurgia de urgência.

A frequência cardíaca de 39 no monitor é a prova do bloqueio.

Qualquer protocolo é mandatório que se opere em até 48 horas nesses casos, mas levamos 3 dias só esperando o tal parecer da Cirurgia, e isso porque dia 2 de novembro era feriado e então deixou-se para a sexta dia 3 e tenho certeza que demoraria ainda mais, até que mais uma intercorrência aconteceu:

Eu chego de manhã no dia 3 de novembro, e pasmem, meu pai estava em franco edema agudo de pulmão, com pressão sistólica de 200 mmHg e Frequência respiratória de 47.

Fui eu quem o encontrei assim às 9h30 da manhã.

Foram as últimas palavras lúcidas que trocamos.

Ele quase sem poder falar me disse que teve a pior noite da vida dele.

Que ninguém havia passado naquele quarto desde a hora em que eu saí de lá às 22h da noite.

E que ele passou a noite rezando e pedindo a Deus que amanhecesse logo e que eu chegasse para salvá-lo.

Vocês conseguem imaginar a dor de um filho por tê-lo deixado lá sozinho??

Já me culpei inúmeras vezes por isso.

E se eu tivesse ficado com ele?

E se eu quebrasse os protocolos e deixasse um celular para ele me ligar?

Mais um corre-corre e pedidos de desculpas até que chega o chefe do setor, Dr Vitor Cravo. 

Meu pai já estava internado há 5 dias e eu sequer havia conhecido o chefe, pois estavam todos ausentes, pois era o período do Congresso de Cardiologia em São Paulo e também o feriado de 2 de novembro.

Aquele dia o Dr Vitor Cravo me disse: "Me dê duas horas e vamos resolver a vida do seu pai".

Dito e feito.

Ele apenas fez o que já devia ter sido feito há pelo menos 48 horas antes.

Ligou para a equipe da Cirurgia Cardíaca às 11h da manhã e às 14h meu pai já estava entrando no Centro Cirúrgico. Sem parecer nenhum. Dessa vez de emergência.

Afinal tinha um quadro de Congestão Pulmonar que em mais algumas horas o levaria a um quadro de Insuficiência Respiratória Aguda.

Não tive nem tempo de explicá-lo o que iríamos precisar fazer.

Ninguém mais da família sequer se despediu ou desejou boa sorte. E assim ele foi levado às pressas para a Cirurgia Cardíaca sem saber que operaria o coração.

Pronto. Passamos agonizantes 5 horas de espera da cirurgia até que ele aparece no elevador.

A cirurgia foi um sucesso.

Ele ficou 4 horas em Circulação extra corpórea e tivera uma excelente resposta.

A troca valvar foi fácil.

O eco pós-operatório mostrava uma excelente função da valva.

A endocardite havia acometido apenas um dos folhetos e o anel. E ele saiu estável, apenas com um marcapasso epicárdico, mas até mesmo o bloqueio se resolveu após uns 7 dias, aproximadamente, e o marcapasso foi retirado.

Quanto orgulho de você, pai.

Você superou mais essa. Tirou de letra.

É mesmo um herói para todos nós.

Foi aí que ele foi novamente deixado na Cardio Intensiva para o pós-operário imediato.

Ele chegou hipertenso. Estava em uso de Nipride para controle da pressão, e num protocolo normal da própria equipe, teria sido tirada a sedação e extubado em até 4 horas.

Havia urinado cerca de 1.500 ml na sonda vesical durante a cirurgia. 

Mas era sexta a noite, né?

E era troca de plantão.

A solução?

"Melhor deixar um pouco mais sedado e entubado e amanha de manhã procedemos a retirada da sedação e a extubação com a rotina".

E então eu vou embora pela primeira vez aliviado e feliz com a notícia de que a cirurgia tinha sido um sucesso e surpreendido positivamente.

Consegui dormir pela primeira vez.

Mas chego no dia seguinte e ele simplesmente estava em choque, com 3 médicos em cima dele, que simplesmente não sabiam do que se tratava.

Me passaram que ele começou a ficar hipotenso às 21h e que além de suspenderem o Nipride, eles haviam tentado contornar com todas as drogas vasoativas para mantê-lo com a pressão estável, sem sucesso. 

Será que posso de fato acreditar nisso?

Num lugar onde os pacientes ficam com pressão sistólica de 200 mmHg a noite toda, sem que ninguém perceba, não me espantaria que ele tivesse atravessado a madrugada inteira chocado sem que ninguém também tenha sequer percebido ou documentado. Isso explicaria a gravidade das lesões sofridas com esse tamponamento.

Mas quando cheguei, o doutor da rotina médica já estava imbuído no quadro.

E àquela altura a suspeita deles era de que meu pai havia infartado.

Eu perguntei e pedi para ver o Eletrocardiograma e era normal.

As enzimas cardíacas, sobretudo a Troponina, também era normal.

Que tipo de infarto é esse que causa instabilidade hemodinâmica, mas que é incapaz de alterar um eletrocardiograma ou um exame bioquímico, marcador de lesão miocárdica?!

Mas insistiram nisso. Mesmo a despeito dos exames normais, eles acreditavam que ele havia infartado, e começou-se a discussão sobre levá-lo ou não ao cateterismo. Mais uma vez o exame se sobrepondo à clínica.

Como ele estava instável, cogitou-se colocá-lo em ECMO, uma espécie de oxigenação extra corpórea que mantém suporte de oxigênio para coração e pulmões debilitados.

Foi quando eu insisti que se tentasse um Eco Transesofágico, para enfim tentarmos chegar a um diagnóstico, pois o risco de levá-lo ao cateterismo naquele momento era muito grande.

Ainda fui de certa forma questionado, pois segundo eles, um eco normal, ou com alteração segmentar, de qualquer forma não mudaria a conduta que era seguir com o cateterismo.

Mas parece que alguém resolveu escutar meu apelo, e o eco foi realizado antes que ele descesse para o cateterismo, e foi quando o diagnóstico do Tamponamento foi feito.

Isso mudou completamente o rumo das condutas.

Suspenderam o cateterismo e a ECMO e enfim ligaram para a equipe cirúrgica, que voltando às pressas, só conseguiu colocar ele novamente em sala por volta do meio dia.

Quanto achismo. Quanto tempo perdido.

Quanta falta de sensibilidade para um diagnóstico tão simples.

O dreno havia parado de acumular.

Era só cruzar esses achados e teria sido fácil diagnosticar.

Quando ele voltou da segunda cirurgia, as complicações já haviam se instalado e aí foi questão de tempo para percebermos as injúrias.

Como já mencionei: Insuficiência Renal, Hepatite Isquêmica e Encefalopatia anóxica, foram só algumas das inúmeras falências de órgãos pós-tamponamento e a sua negligente condução do quadro.

Nunca mais falei com ele.

O máximo de interação foi mexer a cabeça afirmativamente quando perguntei se me amava e se estava com saudades.

Essa foi nossa despedida.

Sabe aquele avião que cai por falha num parafuso?

Exatamente assim que sinto a maneira como meu pai foi desencarnado.

Vencemos o mais difícil e perdemos para a negligência.

Outras negligências ocorreram desde então, até o dia de seu falecimento no dia 30 de novembro.

Teve uma manhã que o encontrei praticamente extubado.

Ele ventilava mal e ninguém havia observado o respirador que alertava sem parar.

Os monitores, respiradores e bombas infusoras de lá, nem sei para que têm alarmes. 

Pois as pessoas simplesmente ignoram.

Nesse dia meu pai fez hipoxemia severa na gasometria e só quando eu cheguei que ajustaram. Mais injúria. Mais lesão para um organismo já tão debilitado.

Mais uma vez muitos pedidos de desculpas e a fisioterapia ajustou o tubo quase 7 cm abaixo do que aparecia ao raio-x de rotina.

Àquela altura eu já havia esgotado minhas forças para brigar com eles.

Fiz uma reunião de quase 2 horas em uma sala reservada com a rotina, e passei a pagar R$ 250 por noite para que uma técnica de enfermagem ficasse a noite toda ao lado dele.

Surreal imaginar que isso seja necessário num hospital com a tradição e recursos do Samaritano e Hospital Vitória.

Elas me passavam coisas básicas como saturação, pressão, parâmetros ventilatórios e doses de aminas. Isso de certa forma me tranquilizava e de lá para cá as intercorrências noturnas cessaram, mas infelizmente era tarde demais para reverter o quadro.

Quem conheceu o meu pai sabe que ele jamais aceitaria viver uma vida de limitações, dependendo de ajuda para suas tarefas básicas, com sequelas neurológicas ou dependente de hemodiálise.

Viveu uma vida ativa e trabalhou e dirigiu até um dia antes de se internar.

Passei os últimos dias aceitando o que seria melhor pra ele, mas com muita pena de perdê-lo.

Meu sentimento é um misto de pena e raiva do que fizeram com ele, sem que eu pudesse defendê-lo.

Médicos soberbos por estarem na chefia de um hospital de ponta, sem o mínimo de humanização no tratamento.

Chegaram a me dizer que eu deveria entender que o meu pai tinha muita sorte de estar em um serviço "acima da média", e que tamanha a gravidade da doença, ele já deveria ter morrido em qualquer outro hospital menos favorecido.

Sei que esse meu relato não irá trazê-lo de volta, mas vocês não imaginam a tranquilidade em minha alma poder estar escrevendo tudo isso.

A terapia intensiva tem compromisso de meio e não de fim. E isso de certa forma blinda os médicos contra ações por negligência ou imperícia, pois ninguém sabe o que se passa nas 24 horas de plantão. Vale o que está escrito, mas são eles que escrevem.

A menos que você tenha acesso aos meios utilizados, como foi o meu caso, você acredita simplesmente que eles fizeram o melhor que podiam, e tenta se acostumar com a sua perda.

Meu pai está num lugar bem melhor que o nosso agora, e isso de certa forma me consola.

Em breve vamos nos reencontrar.

Mas espero sinceramente que Deus toque no coração de cada médico que atendeu meu pai e que eles revejam a profissão que escolheram.

Que façam um curso intensivo de humanização com a enfermagem deles.

Essas sim sabem ser humanas.

Sabem olhar e cuidar de um paciente.

Meu pai nunca foi examinado por um médico da rotina.

Eles traçavam as condutas numa discussão baseadas em números, pareceres, imagens e exame físico que supostamente algum plantonista fazia, mas o máximo que eles "examinavam" era olhar da porta e observar monitores, respiradores e um rosto parcialmente coberto por lençóis.

Fica a saudade e um grande alerta a quem um dia precisar de internação neste lugar.

Acredito que não seja o único lugar que erra.

E não há problema nenhum em errar, quando se tenta acertar.

Mas sem negligência, por favor.

Dr Antonio Carlos Guimarães Junior, filho apaixonado do paciente Antonio Carlos Guimarães e pai do Antonio Carlos Guimarães Neto